14 de setembro de 2011

Duas Mulheres

"...Eu tinha ido comprar pão. Era um sábado à tarde, o sol de Fevereiro brilhava palidamente sobre a cidade. Vi-a do outro lado da rua, ao pé da montra de uma joalharia. Fiquei parada. Olhei para as costas dela e para a nuca, e para as barrigas das pernas, metidas numas botas de um vermelho vivo, e ao mesmo tempo interrogava-me porque é que eu estava parada a olhar para ela. Era como se tudo na rua se tivesse deformado e desfocado, como uma determinada espécie de fotografias, enquanto apenas aquela rapariga tinha permanecido bem nítida, no meio da imagem. Não que a vista de trás fosse particularmente bonita: ficava-lhe muito bem o cabelo apanhado de forma solta, mas as costas dela eram um pouco compridas demais, as ancas demasiado estreitas e as pernas não eram tão direitas como geralmente dá gosto ver. Mas tudo se desviava do ideal num sentido de que uma maneira ou de outra se ajustava exactamente a mim. (...)
Atravessei a rua. De repente arfava um pouco. Nunca antes tinha sentido tão claramente a sensação, de um segundo para outro, de que estava a fazer algo que iria alterar a minha vida por completo. Nunca tinha tido nada com uma mulher e naquele momento mal me apercebi do que estava prestes a acontecer. (...)
Fazia frio. Caminhámos ao lado uma da outra através de ruas onde não tínhamos nada para fazer. (...)
Eu tinha estado casada durante sete anos e já há cinco anos que me tinha divorciado. Fazia o meu trabalho no museu e as visitas à minha mãe eram ao mesmo tempo as minhas férias. De vez em quando lá ia para a cama com um homem que tinha conhecido por aí. Na maioria das vezes isso passava-se em minha casa. Eu não tinha interesse nenhum em ter uma relação permanente (...)
- Vamos até minha casa beber qualquer coisa?- perguntei.
- Acho uma ideia óptima.
(...)
- Tens coisas bonitas- disse ela quando estava sentada no sofá a enrolar um cigarro.
- Isso acontece à medida que vamos envelhecendo.
Mas ela não perguntou que idade é que eu tinha. Abri uma cerveja, enchi dois copos e fui-me sentar à frente dela.
- Também queres enrolar um?- perguntou ela, oferecendo-me o pacote de tabaco.
- Há muito tempo que não faço isso. - Tirei uma mortalha onde coloquei tabaco. As minhas mãos tremiam e ela apercebeu-se disso.
- É teu hábito engatar raparigas na rua?- perguntou ela.
- Podes não acreditar- retorqui sem levantar a cabeça,- mas és a primeira rapariga que alguma vez engatei.
- És casada ou coisa parecida?
Ela fingia mas não era o que sentia. Se aqui alguém estava a ser seduzido, então não era eu. Ainda para cúmulo o tabaco caiu da mortalha para o chão.
- Isso foi já há muito tempo- disse-lhe eu, ao mesmo tempo que apanhava o tabaco do chão. Não queria saber o que ela estava a pensar, ela tinha-me preso e eu não me importava minimamente.
- Nunca foste para a cama com uma rapariga?
- Nunca.
(...)- E tu?
- Claro que sim.
- E com um homem?
- Também.
Não te importa se é homem ou mulher?
- Desde que sejam simpáticos.
(...)
Despi-me no meio de uma grande confusão interior. Cheguei a pensar que faria nas calças com tanta excitação. Quando saí da casa de banho, ela estava ajoelhada em cima da minha cama, nua; na luz vermelha-escura que vinha atrás das cortinas, olhava para mim com o polegar na boca. (...)
Depois ainda ficámos deitadas durante um bocado. Ela era tão macia que eu não conseguia sentir onde é que ela começava. Ela estava deitada de lado e eu junto a ela, apoiando a minha cabeça na mão; com a ponta do dedo médio fui-me aproximando lentamente da carne das nádegas dela, que pareciam as de um rapaz, mas quando podia ver que já estava a premê-las não sentia nada. (...)

(Harry Mulisch- DUAS MULHERES)