23 de fevereiro de 2011

14 de fevereiro de 2011


"...
Só por dentro de ti rebentam flores.
Só por dentro de ti a noite escuta
o que sem voz me sai do coração.
..."
(David Mourão-Ferreira)


1 de fevereiro de 2011

Pulsar

Quase todos os dias a abro, por uma razão ou outra lá lhe mexo, encontro recados em gavetas que nunca reparo que existem. E, porque hoje reparei, procurei-lhe sentido e encontrei. Era um recado simples, algo que escrevi para me surpreender a mim mesma no futuro, baton vermelho encontrado em fundo amarelo. Fui à procura de outros e encontrei notas e apontamentos que falam de ti, de coisas soltas nossas, de instantes únicos. Há pedaços nossos em todos os compartimentos, caixas, gavetas e molduras. Fui escrevendo em toda a parte para depois lembrar. Parece que escondi para descobrir e recordar. Há recados de nós por todo lado, de ontem, de hoje, e se procurar bem, de amanhã também. Percebes agora porque passo tantas noites sem dormir e a perguntar a cor da tinta do quarto? Para espalhar recados nossos, mensagens de cor em recantos nossos.

o AMOr

"...O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". (...) Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar. (...) O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende.
(...) O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado,viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a Vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também.

" Miguel Esteves Cardoso, in 'Jornal Expresso'