11 de novembro de 2011

14 de setembro de 2011

Duas Mulheres

"...Eu tinha ido comprar pão. Era um sábado à tarde, o sol de Fevereiro brilhava palidamente sobre a cidade. Vi-a do outro lado da rua, ao pé da montra de uma joalharia. Fiquei parada. Olhei para as costas dela e para a nuca, e para as barrigas das pernas, metidas numas botas de um vermelho vivo, e ao mesmo tempo interrogava-me porque é que eu estava parada a olhar para ela. Era como se tudo na rua se tivesse deformado e desfocado, como uma determinada espécie de fotografias, enquanto apenas aquela rapariga tinha permanecido bem nítida, no meio da imagem. Não que a vista de trás fosse particularmente bonita: ficava-lhe muito bem o cabelo apanhado de forma solta, mas as costas dela eram um pouco compridas demais, as ancas demasiado estreitas e as pernas não eram tão direitas como geralmente dá gosto ver. Mas tudo se desviava do ideal num sentido de que uma maneira ou de outra se ajustava exactamente a mim. (...)
Atravessei a rua. De repente arfava um pouco. Nunca antes tinha sentido tão claramente a sensação, de um segundo para outro, de que estava a fazer algo que iria alterar a minha vida por completo. Nunca tinha tido nada com uma mulher e naquele momento mal me apercebi do que estava prestes a acontecer. (...)
Fazia frio. Caminhámos ao lado uma da outra através de ruas onde não tínhamos nada para fazer. (...)
Eu tinha estado casada durante sete anos e já há cinco anos que me tinha divorciado. Fazia o meu trabalho no museu e as visitas à minha mãe eram ao mesmo tempo as minhas férias. De vez em quando lá ia para a cama com um homem que tinha conhecido por aí. Na maioria das vezes isso passava-se em minha casa. Eu não tinha interesse nenhum em ter uma relação permanente (...)
- Vamos até minha casa beber qualquer coisa?- perguntei.
- Acho uma ideia óptima.
(...)
- Tens coisas bonitas- disse ela quando estava sentada no sofá a enrolar um cigarro.
- Isso acontece à medida que vamos envelhecendo.
Mas ela não perguntou que idade é que eu tinha. Abri uma cerveja, enchi dois copos e fui-me sentar à frente dela.
- Também queres enrolar um?- perguntou ela, oferecendo-me o pacote de tabaco.
- Há muito tempo que não faço isso. - Tirei uma mortalha onde coloquei tabaco. As minhas mãos tremiam e ela apercebeu-se disso.
- É teu hábito engatar raparigas na rua?- perguntou ela.
- Podes não acreditar- retorqui sem levantar a cabeça,- mas és a primeira rapariga que alguma vez engatei.
- És casada ou coisa parecida?
Ela fingia mas não era o que sentia. Se aqui alguém estava a ser seduzido, então não era eu. Ainda para cúmulo o tabaco caiu da mortalha para o chão.
- Isso foi já há muito tempo- disse-lhe eu, ao mesmo tempo que apanhava o tabaco do chão. Não queria saber o que ela estava a pensar, ela tinha-me preso e eu não me importava minimamente.
- Nunca foste para a cama com uma rapariga?
- Nunca.
(...)- E tu?
- Claro que sim.
- E com um homem?
- Também.
Não te importa se é homem ou mulher?
- Desde que sejam simpáticos.
(...)
Despi-me no meio de uma grande confusão interior. Cheguei a pensar que faria nas calças com tanta excitação. Quando saí da casa de banho, ela estava ajoelhada em cima da minha cama, nua; na luz vermelha-escura que vinha atrás das cortinas, olhava para mim com o polegar na boca. (...)
Depois ainda ficámos deitadas durante um bocado. Ela era tão macia que eu não conseguia sentir onde é que ela começava. Ela estava deitada de lado e eu junto a ela, apoiando a minha cabeça na mão; com a ponta do dedo médio fui-me aproximando lentamente da carne das nádegas dela, que pareciam as de um rapaz, mas quando podia ver que já estava a premê-las não sentia nada. (...)

(Harry Mulisch- DUAS MULHERES)

24 de agosto de 2011

16 de maio de 2011

23 de fevereiro de 2011

14 de fevereiro de 2011


"...
Só por dentro de ti rebentam flores.
Só por dentro de ti a noite escuta
o que sem voz me sai do coração.
..."
(David Mourão-Ferreira)


1 de fevereiro de 2011

Pulsar

Quase todos os dias a abro, por uma razão ou outra lá lhe mexo, encontro recados em gavetas que nunca reparo que existem. E, porque hoje reparei, procurei-lhe sentido e encontrei. Era um recado simples, algo que escrevi para me surpreender a mim mesma no futuro, baton vermelho encontrado em fundo amarelo. Fui à procura de outros e encontrei notas e apontamentos que falam de ti, de coisas soltas nossas, de instantes únicos. Há pedaços nossos em todos os compartimentos, caixas, gavetas e molduras. Fui escrevendo em toda a parte para depois lembrar. Parece que escondi para descobrir e recordar. Há recados de nós por todo lado, de ontem, de hoje, e se procurar bem, de amanhã também. Percebes agora porque passo tantas noites sem dormir e a perguntar a cor da tinta do quarto? Para espalhar recados nossos, mensagens de cor em recantos nossos.

o AMOr

"...O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". (...) Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar. (...) O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende.
(...) O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado,viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a Vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também.

" Miguel Esteves Cardoso, in 'Jornal Expresso'

27 de janeiro de 2011

A casa...


Ravine House - A casa do filme Chloe
Arquitecto Drew Mandel
Uma casa com estrutura em madeira e aço. As escadas e os declives da casa adaptam-se à topografia do local, resultando em lugares amplos e altos, adaptados ao meio envolvente.
Paredes de vidro definem o interior e o exterior permitindo visibilidade entre espaços... imagino olhares cúmplices, atrevidos entre paredes de divisões distintas... sonho-te nua... no chuveiro... tentando-me ao raiar da manhã...

22 de janeiro de 2011

13 de janeiro de 2011

Banho de luz...


Que tal nós duas, numa banheira de sais, pouca espuma mas muita luz.

Que tal uma massagem, trocarmos carícias pelo corpo, relaxarmos a tensão.

Um Dolce Fare Niente merecido...

E assim foi...